Breve Permanência
Não somos feitos de pedra,
mas de vento que insiste.
Passamos pelas horas
como quem atravessa um rio
sem saber a profundidade.
Há dias em que o céu pesa
sobre os ombros cansados,
e outros em que a luz
nos encontra distraídos
e decide ficar.
Carregamos memórias
como quem guarda sementes:
algumas dormem anos,
outras florescem
ao menor sinal de chuva.
Aprendemos devagar
que quase tudo é partida —
a infância, os medos,
os rostos que já foram casa.
Mas algo permanece:
um gesto,
uma palavra dita no momento certo,
um abraço que reorganiza o mundo.
Somos feitos de tentativa,
de quedas discretas,
de coragem que nasce pequena
e cresce quando ninguém vê.
E se o tempo nos leva,
também nos ensina:
cada fim carrega
um começo invisível,
esperando ser chamado.
Noventa Minutos
A bola descansa no meio do campo,
redonda como promessa.
O apito corta o silêncio
e o mundo começa.
Chuteiras riscam a relva,
corações batem velozes,
cada passe é um plano secreto
gritado em muitas vozes.
A claque vira onda,
sobe, desce, faz tremer.
Um drible nasce improvável,
faz toda a multidão prender
o ar.
O guarda-redes voa no canto,
quase toca o impossível.
Mas a bola encontra a baliza
e o golo é possível.
Não são só noventa minutos,
é coragem, união e paixão.
Porque futebol é mais que um jogo,
é sonho rolando no chão.
Guilherme Pimenta
Entre o Silêncio e o Vento
Há um instante no ar
onde o tempo para de correr.
As folhas falam com o vento
numa língua que é só viver.
Dentro de mim há silêncio,
mas não é solidão:
é chama que arde devagar
e ilumina o coração.
Diego Caires
O Som do Mar
Ouvindo o som do mar
A bater nas rochas
Parece que as ondas
Vêm contra mim
O som do mar
Faz-me arrepios
E fico logo com frio
As gaivotas a voar
Por cima do mar
Quando apanham um peixe
Ficam logo contentes
Os corais no fundo do mar
Dão-lhe um brio espetacular
Só me apetece ficar o dia todo
A observar…
Nos seus esconderijos
Os peixes ficam a descansar
Quando de lá saem
Nada os faz parar!
Isabela Trindade
Admiração Aranha
Entre prédios altos de frio betão, balança firme contra o vento incerto.
Não traz riquezas nem glória na mão,
apenas um dever que carrega desperto.
Cai como qualquer um de nós cairia,
sente o peso duro da realidade.
Mas ergue-se sempre, dia após dia,
guiado por um forte sentido de responsabilidade.
Não é um deus distante nas alturas,
é um rapaz comum, cheio de falhas.
Tem dúvidas, medos e noites escuras
( mas enfrenta o perigo nas ruas e muralhas)
No meio da luta solta uma piada,
como quem desafia a própria dor.
E em cada teia lançada ao nada
vai preso um gesto de esperança e valor.
Gosto dele porque mostra, no fundo,
que herói não é quem nunca cai.
É quem escolhe fazer melhor o mundo,
mesmo quando tudo parece desabar demais.
José Pedro Morgado
Sonho
No silêncio da noite calma,
brilha um sonho no coração,
feito estrela que não se apaga,
feito luz na escuridão.
Pequeno verso, grande esperança,
que nasce simples e nunca cansa.
O Céu ao Final da Tarde
O céu pinta-se de laranja,
como um quadro a brilhar. sol desce devagarinho,
como se tivesse medo de acabar.
As nuvens parecem algodão,
a flutuar sem direção.
O vento sopra baixinho,
faz cócegas no meu coração.
As árvores ficam em silêncio,
a ouvir os sons da cidade.
Os pássaros voam para casa,
procurando tranquilidade.
E eu fico a olhar o horizonte,
a pensar no que virá depois.
O dia acaba em silêncio,
mas amanhã começa outra vez para nós.
David Cardoso
No Recreio depois da Chuva
Hoje o céu estava cinzento,
mas não era um cinzento feio,
era tipo quando a professora apaga a luz
e fica tudo em silêncio primeiro.
A chuva caiu devagarinho,
batendo nas janelas da sala,
e eu fiquei a olhar lá para fora
em vez de acabar a ficha de Matemática.
As gotas pareciam correr corrida
umas contra as outras no vidro,
como se fosse campeonato da escola
mas versão microscópica e molhada.
Depois, no recreio,
o chão cheirava a terra lavada
e as poças eram pequenos espelhos
onde o céu se olhava admirado.
Eu quase pisei uma,
mas fiquei só a ver as ondas
a crescerem em círculos perfeitos,
como se alguém tivesse desenhado com compasso.
Às vezes acho que a chuva
não serve só para molhar.
Serve para abrandar o mundo
e dar desculpa para a gente reparar.
E foi assim que, num dia normal,
entre contas e verbos para conjugar,
eu descobri que até uma poça de água
tem histórias para contar.
Rodrigo Silva
Carol e o Caracol
Uma vez uma menina chamada Carol
Fez amizade com um caracol
Maria Eduarda