Os sumérios
chamavam ordenadores do Universo aos bibliotecários. Cada livro era visto como
um oceano de potencialidades infinitas. Atualmente, a leitura está acossada
pela competição de outras fontes de entretenimento e informação. Uma luta
desigual.
As redes sociais fomentam a passividade tentadora e confortável, um letargo acolhedor. É uma miragem de atividade, mais do que uma atividade per se.
Como defende Pedro Afonso, "a emigração maciça da vida social real para o mundo virtual das redes sociais da internet corresponde, num sentido lato, à maior emigração humana da história". A leitura não permite o scrolling, sintoma da procura inquieta da estimulação visual rápida. Ler requer a colaboração do leitor e esta não é isenta de esforço (o esforço da compreensão).
A compreensão
dos mais jovens é também potenciada pelo número de leituras que fazem. Se a
habilidade para ler é uma condição necessária para adquirir o gosto pela
leitura e ler muito é por sua vez condição para adquirir a capacidade de
compreensão, parece que estamos num beco sem saída. Como resolver? Uma resposta
possível é ler para as crianças, permitir às crianças fazer a leitura de uma
leitura. Quando se lê histórias a crianças facilita-se a sua compreensão quando
começam a ler. E compreender é descodificar o texto, tirá-lo da sua encriptação.
O prefixo ex (tão comum em verbos declarativos: explanar, exprimir, expor,
expressar, explicar) significa revelar o oculto, o que estava implícito, tornar
navegável o que era uma mar tempestuoso.
Segundo Platão, o objetivo da
educação é ensinar a desejar o desejável. Como incentivar as crianças e os
jovens à leitura?
1. Contagiá-los com os nossos próprios entusiasmos, falar com
paixão sobre a leitura.
2. Os seres humanos tendem a imitar as pessoas de quem
gostam: ser exemplo, ser leitor.
3. Os seres humanos tendem a repetir comportamentos premiados
(essa recompensa pode consiste na própria sensação de “ser capaz de compreender”).
4. Os hábitos são grandes produtores de desejos.
5. Mudar o sistema de convicções sobre uma atividade pode
incitar a realizá-la, eliminando preconceitos contra ela.
6. Aplanar os caminhos (primeiro pequenos contos).
No entanto, em casa, não raro, ouvimos “não tenho dinheiro nem tempo para isso dos livros”. “Que leiam na escola, andam lá a fazer o quê, a passeá-los? Ora, as bibliotecas são espaços de democratização do livro e “desde o momento em que se coloca o problema do tempo para ler, é porque não há vontade” defende, e bem, Daniel Pennac. O livro tem de ser visto como um aliado. Não como algo de estranho, de peso insustentável. Quantas vezes, nos livros, encontramos a cartografia da nossa própria vida! Só que a leitura permite-nos “outrar-nos”, vivenciarmos empatias e constatar o resultado de escolhas sem ter de “sentir na pele” experiências duras, prescindíveis.
O que não nos mata, enfraquece-nos. A injustiça,
a guerra, a confusão, o caos
enfraquece-nos. Os livros, ao desenvolver o espírito crítico e a imaginação
empoderam-nos. A crueldade premeditada anda sempre de braço dado com as
ignorâncias, sobretudo emocionais. O valor da literatura assenta principalmente
na sua possibilidade de dar corpo à capacidade crítica e à imaginação, ou seja,
à necessidade humana de construir imagens mutáveis do mundo e da existência
para confronto e resolução de dilemas. E deve começar cedo, pois também cedo se
bifurcam caminhos de decisões. Às crianças não pode ser imposto um imperativo
moral (até porque a “moral” é oscilante, movediça, maquilhada). Mas é possível orientar
a criança com aquilo que desejavelmente se deve identificar.
Já Bettelheim
defendia a prevalência da bipolaridade simpatia/antipatia em detrimento do par
dicotómico Bondade/Maldade, o que é reforçado pelo conjunto de elementos que
motivam a simpatia (ou antipatia) da criança pela personagem, conjunto esse que
transcende a prática de atos bondosos ou maliciosos e que inclui fatores como a
aparência física, o meio em que a personagem se move e, sobretudo, a
categorização que, independentemente das ações que venha a perpetrar, a
personagem sofre de imediato através da sua designação (o Lobo Mau, que não é
simplesmente “Lobo” – o que nas fábulas é mais associado à força bruta ou à
falta de perspicácia – mas é sobretudo “Mau” revela desde logo um estigma de
negatividade que nenhuma racionalização – que, naturalmente, nem sequer ocorre
na criança - sobre instintos primários ou satisfação de necessidades básicas
conseguiria suavizar). Repare-se que a antipatia da criança face ao Lobo Mau
não carece de atribuição de culpas: ele é desde logo o Lobo Mau (expressão
cujas conotações de negatividade são reforçadas, na leitura em voz alta, por
códigos extra e paralinguísticos) e a criança, sem quaisquer análises de índole
moral, não quer simplesmente identificar-se com ele.
As falas do “Lobo
Mau” são lidas em voz rouca, com um arregalar de olhos, numa cumplicidade entre
quem lê e quem ouve, numa cooperação que faz emergir uma aliança invisível
entre o leitor, a criança que ouve e o Capuchinho. E, pela imaginação, a
ligação ao “eu” dá-se com a menina do Capuchinho Vermelho e não com o lobo.
Veste-lhe o rosto, a criança. Per secula seculorum. Lembremos António Torrado,
para quem “Se a eternidade tivesse rosto, esse rosto seria o de uma criança”.
Sílvia Pinto
