quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

LER COMO “ARMA” CONTRA A GUERRA

 



Os sumérios chamavam ordenadores do Universo aos bibliotecários. Cada livro era visto como um oceano de potencialidades infinitas. Atualmente, a leitura está acossada pela competição de outras fontes de entretenimento e informação. Uma luta desigual.

         As redes sociais fomentam a passividade tentadora e confortável, um letargo acolhedor. É uma miragem de atividade, mais do que uma atividade per se

    Como defende Pedro Afonso, "a emigração maciça da vida social real para o mundo virtual das redes sociais da internet corresponde, num sentido lato, à maior emigração humana da história". A leitura não permite o scrolling, sintoma da procura inquieta da estimulação visual rápida. Ler requer a colaboração do leitor e esta não é isenta de esforço (o esforço da compreensão).

A compreensão dos mais jovens é também potenciada pelo número de leituras que fazem. Se a habilidade para ler é uma condição necessária para adquirir o gosto pela leitura e ler muito é por sua vez condição para adquirir a capacidade de compreensão, parece que estamos num beco sem saída. Como resolver? Uma resposta possível é ler para as crianças, permitir às crianças fazer a leitura de uma leitura. Quando se lê histórias a crianças facilita-se a sua compreensão quando começam a ler. E compreender é descodificar o texto, tirá-lo da sua encriptação. O prefixo ex (tão comum em verbos declarativos: explanar, exprimir, expor, expressar, explicar) significa revelar o oculto, o que estava implícito, tornar navegável o que era uma mar tempestuoso.

Segundo Platão, o objetivo da educação é ensinar a desejar o desejável. Como incentivar as crianças e os jovens à leitura?

1.           Contagiá-los com os nossos próprios entusiasmos, falar com paixão sobre a leitura.

2.           Os seres humanos tendem a imitar as pessoas de quem gostam: ser exemplo, ser leitor.

3.           Os seres humanos tendem a repetir comportamentos premiados (essa recompensa pode consiste na própria sensação de “ser capaz de compreender”).

4.           Os hábitos são grandes produtores de desejos.

5.           Mudar o sistema de convicções sobre uma atividade pode incitar a realizá-la, eliminando preconceitos contra ela.

6.           Aplanar os caminhos (primeiro pequenos contos).

No entanto, em casa, não raro, ouvimos “não tenho dinheiro nem tempo para isso dos livros”. “Que leiam na escola, andam lá a fazer o quê, a passeá-los? Ora, as bibliotecas são espaços de democratização do livro e “desde o momento em que se coloca o problema do tempo para ler, é porque não há vontade” defende, e bem, Daniel Pennac. O livro tem de ser visto como um aliado. Não como algo de estranho, de peso insustentável. Quantas vezes, nos livros, encontramos a cartografia da nossa própria vida! Só que a leitura permite-nos “outrar-nos”, vivenciarmos empatias e constatar o resultado de escolhas sem ter de “sentir na pele” experiências duras, prescindíveis. 

O que não nos mata, enfraquece-nos. A injustiça, a guerra,  a confusão, o caos enfraquece-nos. Os livros, ao desenvolver o espírito crítico e a imaginação empoderam-nos. A crueldade premeditada anda sempre de braço dado com as ignorâncias, sobretudo emocionais. O valor da literatura assenta principalmente na sua possibilidade de dar corpo à capacidade crítica e à imaginação, ou seja, à necessidade humana de construir imagens mutáveis do mundo e da existência para confronto e resolução de dilemas. E deve começar cedo, pois também cedo se bifurcam caminhos de decisões. Às crianças não pode ser imposto um imperativo moral (até porque a “moral” é oscilante, movediça, maquilhada). Mas é possível orientar a criança com aquilo que desejavelmente se deve identificar.

Já Bettelheim defendia a prevalência da bipolaridade simpatia/antipatia em detrimento do par dicotómico Bondade/Maldade, o que é reforçado pelo conjunto de elementos que motivam a simpatia (ou antipatia) da criança pela personagem, conjunto esse que transcende a prática de atos bondosos ou maliciosos e que inclui fatores como a aparência física, o meio em que a personagem se move e, sobretudo, a categorização que, independentemente das ações que venha a perpetrar, a personagem sofre de imediato através da sua designação (o Lobo Mau, que não é simplesmente “Lobo” – o que nas fábulas é mais associado à força bruta ou à falta de perspicácia – mas é sobretudo “Mau” revela desde logo um estigma de negatividade que nenhuma racionalização – que, naturalmente, nem sequer ocorre na criança - sobre instintos primários ou satisfação de necessidades básicas conseguiria suavizar). Repare-se que a antipatia da criança face ao Lobo Mau não carece de atribuição de culpas: ele é desde logo o Lobo Mau (expressão cujas conotações de negatividade são reforçadas, na leitura em voz alta, por códigos extra e paralinguísticos) e a criança, sem quaisquer análises de índole moral, não quer simplesmente identificar-se com ele.

As falas do “Lobo Mau” são lidas em voz rouca, com um arregalar de olhos, numa cumplicidade entre quem lê e quem ouve, numa cooperação que faz emergir uma aliança invisível entre o leitor, a criança que ouve e o Capuchinho. E, pela imaginação, a ligação ao “eu” dá-se com a menina do Capuchinho Vermelho e não com o lobo. Veste-lhe o rosto, a criança. Per secula seculorum. Lembremos António Torrado, para quem “Se a eternidade tivesse rosto, esse rosto seria o de uma criança”.

Sílvia Pinto