sexta-feira, 5 de novembro de 2021

"Racismo no Séc.XXI?! Naa...deve ser Engano!"

    Antes fosse... o racismo está aí, de garras bem afiadas de fora.  Por isso convidamos toda a comunidade escolar a ler a seguinte narrativa, refletir, nimeadamente em família, acerca dos valores inerentes que perpassam a história e detetar as atitudes repreensíveis que, assim haja vontade, podem ser eliminadas de vez! 

       Capítulo a capítulo, fica o convite: ler, refletir, debater, mudar... na nossa escola, à qual foi atribuído o Selo Escola Sem Bullying,

já estamos a combater toda e qualquer forma de discriminação e violência... e aí em casa?                                             

                                                          Na Pele do Outro

Capítulo I

          A aluna nova sentou-se ao fundo da sala: escolhera a mesa mais isolada, não tendo colega de carteira. A professora não a apresentou formalmente à turma, mas disse o seu nome aquando da chamada. Quando ela entrou, o Rui tinha-lhe dito “enganaste-te na sala”.

- Edna Inoke.         

Edna levantou o braço, timidamente, permanecendo em silêncio. O Diogo, sarcástico, pôs o braço sobre o colega, o Rui, e fingiu corrigi-lo:

- Afinal não se enganou na sala. Enganou-se no país…

A gargalhada foi quase geral. Eu não me ri… O “então, meninos,” da professora perdeu-se nas estridências sonoras de risos forçados. Edna não perdeu a compostura. Fingiu que nada se passara. Entretanto, com a ajuda de uma régua amarela e de um compasso que pareciam ter sido atingidos por um raio de uma máquina de aumentar objetos, a professora de matemática desenhava no quadro figuras geométricas:

 



 

Olhei atentamente as figuras desenhadas no quadro. A professora indicou os cálculos que pretendia que realizássemos, mas (como não raro me acontecia) o meu pensamento divagou e vi dois círculos e dois quadrados, praticamente iguais e, não obstante, diferentes entre si.

De súbito, houve um burburinho. Um problema no quadro elétrico reduzira à escuridão a sala de aula. Em dezembro, os dias são curtos e – como diz tantas vezes a minha avó – às seis horas já é de noite. Entre os gritinhos falsamente estarrecidos de algumas meninas e risadas com pretensões fantasmagóricas dos rapazes, gerou-se a confusão geral, camuflada pela escuridão.

- Tenham calma! Tenham calma!... – disse a professora, num tom denunciador de bastante nervosismo. Mas tal não se justificava: dois infindáveis minutos depois, a luz voltava.

- Eu vi a luz! – gritou o Pedro, com acentuada pronúncia brasileira…

Nova risada quase geral. O Diogo não quis que lhe roubassem o protagonismo. Era sempre ele a fazer a turma rir. Apontou para a Edna e gritou:

- Ainda há uma lâmpada apagada!

Desta vez, de tão sonoras, as risadas tornaram-se quase assustadoras. Edna manteve-se imóvel, mas respirava muito rapidamente, como se estivesse com falta de ar. A expressão do rosto não se alterou, mas uma lágrima teimosa e involuntária deslizou pela sua face. Não me contive:

- Ó Diogo, já nasceste parvo ou tornaste-te parvo com a idade?

- De que lado estás, Carla? – vociferou o Diogo - És favor da pretalhada? Claro, os teus pais não estão desempregados como os meus…

Não percebi a relação… Nem tive muito tempo para refletir, pois ouviu-se um sussurro que silenciou a turma:

- Nasci no Porto.

A Edna finalmente falara. Ela percebera algo nas palavras do Diogo que me tinha escapado.

Deu o toque para fora. Reparei que, em contraste com todos os colegas (que arrumavam rapidamente o material como se uma pedra gigantesca viesse a rolar na sua direção, ao estilo do filme Indiana Jones, e lhes restassem apenas alguns segundos para fugir dali), Edna guardava tudo com calma. Fui ter com ela:

- Olá! Chamo-me Carla.

- Eu sei.

Falou um pouco friamente e comecei a duvidar se teria sido boa ideia ter ido falar com ela.

- Queres ser a miúda simpática que não se importa de falar com a aluna nova que, ainda por cima, é preta…

- Não, - retorqui, num tom desiludido – quero ser apenas uma miúda simpática. Tal como gosto que sejam simpáticos para mim.

Virei costas, pondo a mochila ao ombro.

- Desculpa, - disse Edna – tive um dia mau. Tu sabes… Estou a sentir-me mesmo em baixo.

- Li algures que ninguém tem o poder de te fazer sentir mal sem o teu consentimento.

- Como assim?

- Não podes dar importância a um idiota como o Diogo!... Não tem a ver contigo, entendes? Seria igual se tivesses uns quilos a mais, ou acne, ou o cabelo muito oleoso, ou as pernas tortas,… eu sei lá. Ele tem de pegar com qualquer coisa. Há miúdos que gostam de ser o palhaço da turma. No caso da nossa turma, é o Diogo.

- Se eu tivesse o cabelo muito oleoso, lavava-o.

Tive vontade de rir, mas a Edna mantinha um ar de tristeza que me perturbava.

- Sim, por vezes temos o poder de mudar as coisas. Mas devemos saber o que precisa mesmo de ser mudado.

- Eu gostava de mudar.

- Mas não precisas. A mentalidade mesquinha, preconceituosa e ridícula de algumas pessoas é que precisa de ser mudada.

- Para ti, é fácil falar…

Uma nuvem de tristeza nublara de novo o olhar de Edna. Decidi mudar de assunto:

- Queres vir a minha casa para fazermos juntas os TPC’s? – perguntei, com um entusiasmo exagerado para a situação.

- Se a minha mãe deixar. Vou ligar-lhe…espero que não tenha o telemóvel desligado. A senhora onde ela trabalha não a deixa fazer ou atender chamadas. – esclareceu Edna, já de telemóvel na mão - Mas são quase sete horas. Ela sai às seis e meia.

A conversa foi rápida.

- Posso ir. A minha mãe deixa-me…

Tínhamos trabalhos de casa de Português e de Matemática. Começamos pelo de Português: elaborar uma minibiografia sobre uma figura célebre. O copy-paste estava proibido, deveríamos recorrer a várias fontes de informação e fazer a síntese das indicações recolhidas. Mas o primeiro passo era escolher a figura central do trabalho…

- Estou sem ideias…- disse a Edna, com o queixo apoiado na mão.

- Podias fazer do Nelson Mandela. – sugeri eu, com entusiasmo. Parecera-me uma boa ideia. Do olhar de Edna transparecia uma espécie de mágoa.

- Por que não fazes tu sobre o Nelson Mandela?

- Posso fazer. Vi há pouco um filme, o “Invictus”, e cheguei à conclusão que é um homem espetacular. Só que estou indecisa entre o Nelson Mandela e a Madre Teresa de Calcutá…Acho que vou mesmo optar pelo Nelson Mandela.

- Ótimo. Eu vou fazer do Justin Bieber…

- Tu é que sabes…

Uma sensação de desconforto pesava no ar. Mas não durou muito. Tínhamos de partilhar o mesmo computador e isso tornou o diálogo inevitável.

- Já escolheste a foto do Mandela que queres pôr no trabalho? Procura-me uma do Justin Bieber…uma recente, já com rastas. Fica mais bonito assim, não achas? Bem, ele é lindo de qualquer maneira. Este último CD arrasou…Vê uma foto que não tenha direitos de autor.

- Não te preocupes. Estou no Commons…

As biografias estavam quase prontas.

- Tenho uma enciclopédia sobre pessoas famosas. O teu querido Justin Bieber não aparece, de certeza, mas deve ter alguma coisa sobre o Nelson Mandela.

- Vai ver. – respondeu Edna, num tom distraído.

Quando consegui descolar o olhar enlevado da Edna das fotos do Justin Bieber (havia mais fotos do que texto; era uma fotobiografia com muito de foto e pouco de biografia), passámos ao TPC de Matemática.

- Temos de calcular a área sombreada de cada figura.

-Não há problema, eu sou perita em Matemática- retorquiu a Edna -Vamos começar com o retângulo: faz-se Comprimento x Largura. E no quadrado faz-se Lado x Lado...

-Obrigada, sem ti não seria capaz…

-De nada! – o olhar de Edna começou a sorrir - Sabes…

- O quê?

- Tu és fixe.

- Tu também, se esquecermos o pormenor de gostares do Justin Bieber.

Rimos as duas. E o tempo cristalizou-se, eternizando-se nesse instante de um sorriso de amizade...

 

Capítulo II

A professora de matemática falava com um entusiasmo tão enérgico como exclusivo:

- Já falta pouco para a primeira fase das Olimpíadas de Matemática! Todos os alunos com média igual ou superior a 95% podem e devem participar!

Isso significava simplesmente que, da turma, só a Edna podia participar. Ia representar a turma no conjunto de todas as turmas de nono ano. Aposto que o Diogo não estava contente com isso.

- Uma preta que sabe calcular? Tenta calcular os quilómetros que te faltam para acertares no país! - mais uma vez o Diogo tinha de intervir. Desnecessariamente, para mim, mas para os outros pareceu ter muita piada, já que as risadas eram quase ensurdecedoras. Reparei numa Edna cabisbaixa e tive de falar:

-Por que não lhe pedes para calcular o tamanho da tua estupidez?

O Diogo olhou para mim surpreendido, pelos vistos nunca ninguém o tinha contrariado.

-Agora defendes os pretos, é?- questionou-me, de sobrancelha arqueada.

-É  a Edna, mas podia ser outra pessoa qualquer. Mete-te na tua vida e deixa a minha amiga em paz! - a Edna sorriu com o meu comentário, enquanto a reação dos meus colegas de turma era indescritível.

-Já chega meninos! Que tal fazeres uma visita ao exterior da sala, Diogo?-interveio a professora, com o indicador da mão esquerda apontado à porta da sala.

Ele levantou-se, visivelmente irritado, mas não sem antes lançar um olhar mortífero a mim e à Edna. Caminhou até ao exterior e, finalmente, abandonou a sala.

- Edna, tens uma semana para te preparares para as Olimpíadas! Não precisas de ficar nervosa. Se tiveres dúvidas com alguma coisa na matéria é só perguntares!

Edna assentiu com a cabeça, mas com uma notável tristeza na sua face. O toque de saída foi ouvido pela última vez naquele dia.

-Parabéns! Não ligues ao que eles dizem! Tu és excelente a Matemática, já me provaste isso. E à  professora também. Vais ganhar o concurso, vais ver. Vens fazer os TPC’s a minha casa outra vez?- perguntei eu, entusiasmada.

Edna sorriu para mim e, mais uma vez, foi falar com a mãe ao telemóvel. Terminou a chamada e informou-me:

-Posso ir!

-Boa! Hoje só temos TPC's de Inglês, mas se quiseres treinamos um pouco para o concurso! Que achas?- perguntei, numa tentativa de fazê-la esquecer o que se tinha passado, pouco antes, com o Diogo.

-Acho bem!

Começámos então com o trabalho de casa de Inglês. Edna parecia estar mais à vontade comigo.

-Bem, no exercício 1 temos de completar as frases com a question tag correta.- explicou com um ar doutoral.

-Na primeira frase, acho que é para completar com aren't they…- arrisquei. Edna pareceu não compreender o porquê de ser esta a resposta, visto que me olhou como se eu tivesse algo na cara (um macaco no nariz ou restos de alface nos dentes); então, passei a explicar:

- As question tags servem para reforçar uma ideia! Se a pergunta está na negativa tens de torná-la positiva e vice-versa.

 Ela lançou-me um olhar confuso.

-Vou exemplificar com uma primeira frase, só que em português. "O John é professor, não é?" O primeiro "é" está na positiva, e para reforçar a ideia, utilizamos a forma negativa na segunda oração.

-Ah, já percebi! Obrigada! Parece que cada um tem uma matéria em que é naturalmente bom! Embora estudar e treinar ajude muito, claro.

Depois do comentário de Edna, terminámos os exercícios e passámos o resto da tarde a praticar para o concurso. As resoluções dos problemas fluíam naturalmente, assim como a conversa. O seu raciocínio matemático era verdadeiramente excecional. Quem sabe? Se calhar, tinha a futura Isaac Newton feminina do meu lado e nem sabia.

 

 

 

 

 

Capítulo III

 

- Estás pronta? - perguntou a professora à Edna, já dentro do autocarro que seguia em direção ao pavilhão das Olimpíadas. Depois, com um ar algo desolado, acrescentou:

- Infelizmente, neste ano, foram poucos os qualificados para as Olimpíadas: 36 alunos apenas! Não sei de onde provém a resistência dos alunos à matemática…

Após uns segundos de ponderação, a professora assumiu um tom mais informativo. Parecia ter memorizado a síntese de um regulamento:

- Nesta semana que passou, foram informando todos os participantes sobre as regras e sobre a matéria que ia sair na primeira prova. Estás a par de tudo isto, certo, Edna? – mas não lhe deu tempo para responder - Disseram também, como bem sabem e por isso estão aqui, que a turma dos alunos selecionados poderia estar presente, como claque de apoio. Houve quem não pudesse ou não quisesse vir: a adesão à iniciativa era facultativa. Os prémios só vão ser anunciados quando se souberem os vinte finalistas. Depois desta etapa existirão, também, mais duas fases, sendo que, na segunda, restarão dez finalistas e, na última, apenas dois.

Por fim, mudou o tom de voz robotizado e falou de modo mais emotivo:

- E estou certa de que a vencedora vai ser a Edna.

Decidi juntar a minha voz à voz da professora, para incentivar a Edna.

-Não te preocupes, tenho a certeza que te vais sair bem! Passaste a semana a estudar. - disse eu, ao reparar no visível nervosismo da minha amiga.

- E se eu me esquecer de uma fórmula? –perguntou, cabisbaixa.

-Não te vais esquecer! Eu estou aqui para te apoiar! E mesmo que não passes à próxima fase - o que não vai acontecer! - eu vou continuar a ser tua amiga!

- Obrigada, Carla!

-Sempre às ordens! – afirmei, fazendo uma pequena continência com a mão direita. Edna riu e agradeci a mim mesma, mentalmente, por ser palhacinha.

-Ei preta! Vê lá se não te dá uma branca!- soltou o Diogo, causando risadas em todo o autocarro. Quando eu ia defender a Edna, para minha surpresa, ela mesma o faz:

-Não te preocupes! O único perigo que corro é poder assustar-me com a tua cara!

O Diogo ficou em silêncio. Houve risinhos contidos e até um “Eiiii, agora calou-te!”, pronunciado pelo Tiago. Exclamei um "Muito bem!" ao qual Edna respondeu com um sorriso! Pelos vistos, anda a aprender a defender-se!

Com toda esta confusão, nem demos conta de o autocarro parar. A professora levantou-se do seu assento e pediu-nos para irmos saindo cautelosamente, por ordem numérica, de forma serena, enquanto nos atropelávamos para sair, quase aos trambolhões, voando sobre os dois degraus do autocarro.

 

Capítulo IV

 

O pavilhão tinha um cheiro esquisito. Cheirava a mofo e a humidade. Era um espaço enorme, claramente um complexo desportivo, a precisar urgentemente de obras.

Reinava a confusão geral. Estavam lá centenas de alunos. De súbito, um senhor pegou num microfone e, entre momentos de chiadeira arrepiante (e eu, por azar, estava ao lado de uma coluna de som) tentou dar algumas instruções:

- Os alunos concorrentes formem fila na receção para receber uma T-shirt das Olimpíadas e um cartão de acesso ao espaço onde vão decorrer as provas. Os alunos apoiantes dirijam-se às bancadas. Alunos da mesma turma devem permanecer juntos. No final, não abandonem o recinto sem a presença dos vossos professores…

Senti que ia abandonar a Edna à sua sorte. A turma estava feliz apenas por ter tido dispensa das aulas para lhe dar apoio, mas não ia verdadeiramente apoiá-la. Eu estava mesmo a torcer por ela… desejava-lhe toda a sorte do mundo!

- Força Edna, és a maior!

- Ai, Carla, estou tão nervosa!

- Vai correr tudo bem! Vai lá para a fila dos concorrentes…

E Edna lá foi, trémula, a olhar por vezes para trás, a olhar para mim, como se os seus olhos me dissessem: “Socorro! Tira-me daqui!”

No pavilhão estavam mesas dispostas em fila, com uma divisória em contraplacado a dividi-las, como numa antiga biblioteca. Os concorrentes começaram a sentar-se, procurando a mesa com o mesmo número que lhes havia sido atribuído.

O senhor do microfone pedia silêncio nas bancadas e dava mais algumas instruções:

- O tempo para a realização da prova será de 90 minutos. Não há tolerância. Não podem usar corretor. Caso se enganem, devem riscar e fazer de novo. Das bancadas, não pode vir qualquer ajuda…

- Que cena! – disse o Tiago – nem que se conseguisse ver alguma coisa daqui. O homem não deve bater bem. É muita matemática naquela cabeça.

- Eu, mesmo que visse, não ajudava a preta. – grunhiu o Diogo.

- Ai não ajudavas, não. Estúpido como tu és! – disse-lhe, com vontade de lhe dar um empurrãozinho naquelas bancadas de estrutura frágil.

O Diogo calou-se. Como qualquer bully, ficava sem saber como reagir quando alguém lhe fazia frente. Quase que tive pena dele. Quase…

- …só podem usar o lápis se assim estiver indicado na prova. Não podem identificar-se em mais nenhum local da prova sem ser no cabeçalho. Quaisquer comportamentos fraudulentos serão alvo de sanção.

- O que quer dizer esta última regra? – perguntou a Vanessa.

- Tipo, o pessoal tem de se comportar e isso… - tentou explicar o Tiago.

- Isto é mesmo uma palhaçada. – exclamou, de novo todo-senhor-do-seu-nariz, o Diogo – nem proíbem o copianço.

A prova começou.

A Edna denunciava um nervosismo evidente. Lia e relia a prova com atenção, mas não havia ainda começado a escrever. O Diogo, claro, não se conteve:

- Está aflita. Não escreveram a prova em pretoguês.

Para meu espanto, ninguém se riu. Acho que todos já sentiam algum cansaço das piadas do Diogo, tendo a mesma reação de quem ouve a mesma anedota por diversas vezes. Ou será que começava a haver alguma empatia pela Edna? Será que, no fundo, os meus colegas (com exceção do idiota do Diogo) queriam que a Edna ganhasse?

De súbito, a Edna começou a escrever. Escrevia de rajada, com uma energia e uma segurança que me encheram de alegria. Nem usou a folha de rascunho. E quando o tempo se esgotou e as provas foram de imediato retiradas aos concorrentes, a Edna procurou-me com o olhar. Eu levantei-me e gritei:

- Estou aqui, amiga!

A Edna acenou e sorriu. O Tiago também lhe acenou; a Vanessa fez o mesmo e, pouco a pouco, quase todos os meus colegas de turma acenaram à Edna e sorriram, genuinamente felizes pelo seu estado de satisfação. O Diogo ainda sussurrou:

 - ‘Tá tudo maluco!

Mas o Diogo tornara-se invisível. O que ele simbolizava deixara de existir. O preconceito, o racismo, a mesquinhez, tudo isso fora reduzido a zero, naquela competição matemática.

O senhor do microfone voltou a dar um ar de sua graça. Para evitar o ruído desagradável do feedback, envolvera o microfone num lenço aos quadrados. Parecia um vendedor de edredons numa feira.

- Agora, podem visitar o exterior das nossas magníficas instalações, enquanto um júri composto por professores de matemática procede ao apuramento dos resultados. O nome dos alunos apurados para a segunda fase será divulgado dentro de 90 minutos.

O “exterior das magníficas instalações” era um chão em cimento polvilhado por pastilhas elásticas multicoloridas e dois canteiros de erva rasa e seca onde cães incógnitos tinham deixado presentes pouco agradáveis.

- Hora e meia de seca! – disse a Vanessa, desanimada. – Stora, podemos ir ao autocarro buscar o lanche?

- Sim, claro. Não se afastem uns dos outros…

Além do lanche, todos trouxemos os nossos tablets, Ipod’s, smartphones e todo o tipo de equipamento informático que se pode imaginar. Eu trouxe o meu e-reader, pois andava a ler um texto muito fixe chamado “A Palavra Mágica”, de Virgílio Ferreira.

Submersos no mundo cinerbético, o tempo passou a voar. Iam anunciar os vencedores. Tivemos todos de voltar ao recinto. Os concorrentes tinham aguardado numa sala à parte, onde lhes fora oferecido um pequeno lanche.

De novo, a voz do “vendedor de edredons”:

- E já temos os nossos vinte finalistas. Os nomes serão ditos por ordem arbitrária: Pedro Jorge Neves, Ana Catarina Silva, Maria Inês Correia, Raquel Alves dos Santos, Edna Noque,…

Mesmo com o apelido da Edna mal pronunciado, a turma teve uma explosão de alegria. O Diogo abanava a cabeça, inconformado. Não sei se o afetava mais a boa prestação da Edna ou a turma estar a apoiá-la. Eu fiquei tão feliz e orgulhosa como se tivesse sido o meu nome a ser chamado. Inevitavelmente, lembrei-me do conto que andava a ler: “Noque”, dissera estupidamente o homem do microfone.

- É Edna Inoque, ó camelo! – gritou o Tiago, que não era mau rapaz, mas não primava pela diplomacia. O homem não ouviu, continuando a listagem dos vinte nomes.

Como estaria a sentir-se a Edna? A prova seguinte iria ser ainda mais difícil…

 

 

Capítulo V

Os vinte finalistas estavam dispostos em mesas individuais. Nas bancadas predominava um silêncio nervoso. Foi anunciado que a prova consistiria na resolução de problemas matemáticos. Estremeci! A Edna tinha treinado pouco essa matéria. No entanto, eu continuava confiante nas suas capacidades matemáticas e, sobretudo, na sua inteligência. Tinham apenas meia hora para resolver três problemas, apresentando a solução e os cálculos inerentes à resposta.

No relógio com a contagem decrescente, os trinta minutos passaram a voar. A Edna olhava constantemente para o relógio. Escrevia e roía as unhas, não me parecia nada segura.

Houve finalistas a concluir a prova antes do término dos trinta minutos. Podiam fazê-lo e entregar a prova a um dos jurados, pois isso encurtaria o tempo de correção. A Edna precisou da meia hora e entregou a prova com um ar desolado. Agora era mais fácil ver-me na plateia, pois só havia apoiantes de vinte concorrentes e muitos alunos nem tinham regressado às bancadas, tendo ficado a jogar com o Ipad e, sobretudo os casalinhos, a …a fazer outras coisas. A Edna olhou para mim e eu era capaz de jurar que vi lágrimas teimosas a quererem libertar-se dos seus olhos.

Havia vinte jurados, por isso a correção das provas foi rápida. Quando os nomes dos dez “resistentes” foram anunciados, o nome “Edna” não constou. Paciência! Aqueles alunos eram os melhores dos melhores e não se pode vencer sempre.

Passada uma eternidade de vinte minutos, Edna veio, cabisbaixa, juntar-se a nós. Para meu espanto, o Diogo remeteu-se ao silêncio. Fui ao encontro dela para a abraçar, mas ela estava inconsolável:

- Deixei-vos ficar mal a todos!

- Que tolice! Estamos orgulhosos de ti!

A professora também lhe deu um abraço:

- Edna, para nós, já és uma vencedora!

Preparávamo-nos para regressar ao autocarro, quando o “vendedor de edredons” referiu que tinha algo a anunciar:

- Desculpem, mas há uma questão a esclarecer. Lamentavelmente, um dos finalistas incorreu num comportamento fraudulento, tendo esse facto sido provado e já admitido pelo infrator. Não entrarei em mais detalhes, mas, como ditam as regras do concurso, o competidor em questão fica automaticamente excluído, pelo que iremos anunciar, desde já, o finalista que o irá substituir para o apuramento do campeão e do vice-campeão: e a nova finalista é …Edna Inoque!

- É pá, que agora o homem até leu bem o nome! – gritou o Tiago.

Edna estava incrédula. Eu não consegui falar. Dei-lhe apenas um abraço apertado. Veio uma senhora com ar sério e disse a Edna para a acompanhar.

 

 

Capítulo VI

Esta prova era à porta fechada. Consistia na resolução de equações de segundo grau. Os dois competidores a acabar primeiro iriam disputar a vitória nas Olimpíadas. Para o vencedor seria oferecido um cheque-livro no valor de 1000 euros e recursos relacionados com a matemática para a escola a que pertencia; para o vice-campeão, um cheque-livro de 500 euros e também materiais didáticos para a respetiva escola.

Para mim, o tempo passava devagar, talvez pela ansiedade ou pela falta de coisas para fazer. Reparei que não era apenas eu a lutar contra o nervosismo, visto que quase toda a turma parecia respirar pausadamente, como se a tentar reduzir a ansiedade.

O ranger de uma porta foi ouvido em todo o recinto, fazendo com que todos os presentes no pavilhão direcionassem o olhar para lá.

-E já temos os nossos dois finalistas! Depois de uns exaustivos 47 minutos de espera e de bastante ansiedade por parte de todos nós, tenho o prazer de anunciar que os finalistas desta prova são...- informou o senhor do microfone, mas não disse mais nada! Pareceu parar no tempo, pois permaneceu quieto. Pelos vistos, quis criar um clima de tensão no público. Bem, resultou! E não fui a única a reparar nisso, já que o Tiago interveio:

-Deixe-se lá de coisas e diga logo! O homem 'tá cada vez pior!

- Ana Catarina Silva e Edna Inoque! - esclareceu o "vendedor de edredons"! Toda a nossa turma gritou! Todos estávamos felizes e orgulhosos pela Edna!

-Edna! Edna! Edna!...-gritávamos com os braços sobrepostos nos ombros dos colegas do lado! E, pelo canto do olho, reparei que Diogo também tinha um sorriso disfarçado na cara! Será que vi bem?

-Peço silêncio na plateia!- pediu o "Noque", fazendo com que retomássemos os nossos devidos lugares - Esta ronda final consiste numa junção de toda a matéria abordada nas provas anteriores. Terão 60 minutos e a primeira a acabar terá uma vantagem de cinco pontos sobre a adversária, caso a pontuação seja inferior a noventa e cinco por cento. Boa sorte! Podem começar!

Foi-nos permitido ir para fora do recinto, mas preferi ficar a apoiar a minha amiga assim como a minha turma. Edna olhou para a prova e arregalou os olhos! Aquilo devia ser tão complicado! Só esperava que ela mantivesse a calma! Já se tinham passado cinquenta e um minutos e nenhuma das duas tinha terminado.

-Terminei! - informou a rapariga de óculos, a tal Ana não-sei-quê!

“Parece que falei cedo de mais! Espero que os cinco pontos não influenciem muito!” -pensei para mim mesma.

Passado apenas um minuto, Edna entregou a prova e veio ter connosco:

-Ela tem cinco pontos de vantagem! E agora? E se eu perder? A escola precisa do melhor equipamento!

-Relaxa Edna! Mesmo que não ganhes continuas a ser um orgulho para nós!

-Obrigada, Tiago!

-Ele tem razão Edna! Mas não te preocupes! Tu vais ganhar e mostrar a todos o quão inteligente és!

-Sim!- disseram todos em uníssono, concordando comigo!

Sentámo-nos nas cadeiras a falar, enquanto as provas eram corrigidas! O que não demorou muito tempo, pois o homem do costume não tardou em dizer:

- As provas já foram corrigidas e tenho a dizer que… com a vantagem de cinco pontos e uma prova avaliada com noventa e três, Ana consegue uma pontuação total de noventa e oito pontos! Já Edna Inoque conseguiu um total de...- e pronto! Deixou-nos no vácuo! Custa assim tanto dizer um número?

-… de  noventa e seis pontos! Parabéns às participantes, principalmente à vencedora Ana Catarina Silva !

- Por um minuto? A Edna teve melhor nota! As regras estão mal feitas! - protestou o Diogo, acrescentando: "'Tá mesmo tudo maluco!"

Ao reparar no que tinha dito, o Diogo sentou-se corado! Parece que alguém deixou de ser estúpido! A minha amiga desceu do palco com o cheque de 500 euros e o saco de recursos que entregou à professora. Esta abraçou-a e desejou-lhe os parabéns! Edna dirigiu-se a nós, encolhendo os ombros:

-Desculpem!

Para sua surpresa, todos nos dirigimos a ela e a abraçámos! Até o Diogo! Esta sorriu e sussurrou um emocionado obrigada!

Pode parecer cliché o que vou dizer, mas sinto-me na obrigação de o fazer! Lá porque somos gordos, magros, altos, baixos, mais morenos, ou mais claros, todos temos direitos! Neste caso foi Edna, mas podias ser tu! Todos fazemos falta, todos nos complementamos. O círculo é diferente do quadrado, não sendo mais nem menos importante no universo matemático. Coexistem, “coimportam”. Também nós, nas nossas maravilhosas diferenças, temos a mesma dignidade de seres humanos.

A minha mãe sempre me disse «Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti!»- e é bem verdade! Antes de fazeres qualquer comentário ou ofensa pensa bem naquilo que tu irias sentir! Edna pode não ter vencido, mas ganhou novos amigos. E bastou um sorriso na cara dela para um sentimento de “Missão cumprida!” nos invadir! E esse é o gesto que completa o vazio no teu coração e no coração da pessoa! Então? E se fosses tu?