Eu sei que o meu espaço neste blogue é para falar sobre filhos. Hoje, permitam-me, por favor, falar sobre pais – até porque as duas coisas estão umbilicalmente ligadas.
Em Novembro, a minha mãe caiu das escadas e partiu o braço em dois sítios diferentes. Uma das fraturas, junto ao ombro, foi particularmente feia. O tratamento cirúrgico adequado seria uma prótese total do ombro, mas, no caso concreto da minha mãe, a equipa que a acompanhou optou por um tratamento conservador. Isto implicou quatro semanas de imobilidade total que tornaram a minha mãe, pela primeira vez na vida, dependente em tarefas tão simples como o banho.
Assim, durante mais de um mês, fui responsável pela higiene da minha mãe – sendo enfermeira, estava mais à vontade com esta tarefa -, e dividi com a minha irmã as tarefas domésticas em casa dos meus pais. E sabem uma coisa? Senti várias vezes que ia rebentar de stress e cansaço e percebi, em absoluto, a designação de geração sanduíche.
Com três crianças permanentemente em casa – uma delas, na altura, com um mês –, e outras duas (em tempo parcial), senti-me, de repente, totalmente esmagada pela sensação de que, por mais que tentasse e por mais que me esticasse, não estava a conseguir chegar como devia nem a um lado, nem ao outro. Foram semanas em que o sentimento de insuficiência se colou a mim como uma carraça, porque, independentemente do esforço, houve sempre pontas soltas e coisas que não consegui agarrar.
Reparem: comparativamente à maioria das pessoas, eu ainda tenho a vantagem de ser enfermeira e de cuidar, há muitos anos, de pessoas com dependência. Mas uma coisa é cuidarmos dos nossos utentes, por melhor que seja a nossa relação com eles, durante o nosso horário de trabalho. Outra, completamente diferente, é cuidarmos dos nossos pais que, na nossa cabeça, ainda são quem cuida de nós. A situação da minha mãe foi temporária, é certo, mas destapou uma fragilidade para a qual eu não estava preparada.
Uma noite, estava eu a adormecer os mais velhos, o meu pai ligou-me. A minha mãe estava desesperada com dores e ele achava que o imobilizador estava mal colocado. Pedi-lhe que esperasse uns minutos e prometi que correria para casa deles mal os miúdos adormecessem. Assim foi. Mas, quando o meu pai me abriu a porta, senti um baque no coração. Porque, pela primeira vez, ele pareceu-me, de facto, ter os quase oitenta anos que lhe marca o cartão de cidadão. E vi-o mais pequeno, mais magro e, acima de tudo, mais frágil do que alguma vez o tinha visto.
Obviamente, recoloquei o imobilizador da minha mãe, dei-lhe um analgésico e pedi-lhes que me voltassem a ligar se houvesse mais algum problema. Não fossem os miúdos, teria lá ficado a dormir (coisa que, na verdade, foi sempre o que senti que devia fazer, mas que a logística da nossa vida impossibilitou), mas tive de voltar para casa. Chorei o caminho todo, porque aquela ida nocturna à casa onde cresci fez-me perceber que os meus pais já não são a fortaleza que sempre reconheci neles. Entrámos na fase em que terei de ser eu a transformar-me em rocha – e isso dói.
Tenho trinta e nove anos e nunca antes senti que os meus pais fossem frágeis. Mesmo quando o meu pai esteve gravemente doente nos cuidados intensivos, quando todos me diziam que era melhor despedir-me. Acreditem ou não, eu soube sempre que ele iria recuperar. Era o meu pai, eu tinha vinte anos, e era óbvio, para mim, que ele não iria deixar-me sozinha. Desta vez, no instante em que me abriu a porta, eu soube que alguma coisa tinha mudado. Como se o relógio tivesse começado a correr ao contrário e a vida me dissesse “agora é contigo!”.
Eu sei que o meu espaço neste blogue é para falar sobre filhos. Hoje, permitam-me, por favor, falar sobre pais – até porque as duas coisas estão umbilicalmente ligadas.
Isto de que falo não é novo. O tema tem sido estudado e a ciência fala-nos em processos de luto antecipado, de ambivalência afectiva e de conflito interno – mas quando se dá o clique, não há ciência nem teorias que nos valham. O aperto que sentimos no coração não se compadece com a certeza de que é este o ciclo natural da vida.
E a forma como vivemos hoje torna tudo ainda mais duro. Porque, com o nosso ritmo de vida, ficamos absolutamente espremidos entre duas gerações dependentes e um emprego onde nunca podemos dar menos do que o máximo. Além disso, a sociedade, não contente, ainda nos exige que ostentemos uma vida de Instagram.
Responsabilidades parentais ativas, responsabilidades com os nossos pais envelhecidos, trabalho, versatilidade, a casa para gerir e cuidar, conexões relacionais, gestão financeira e saúde mental. Se calhar, retiro o que disse sobre concordar com a designação de geração sanduíche. Chamem-nos antes geração compressão. Porque isto, afinal, não é só viver entre duas realidades de cuidar: é ser comprimido, diariamente, entre múltiplos papéis. E sentir que nunca conseguimos ser suficientemente bons em nenhum.